Sofrer de amor é admitir que você é covarde.
O que Verissimo antecipou, Jeff Buckley cantou.
Retumbantes eram os clamores do cantor americano em meus fones enquanto folheava com incredulidade e admiração, em justaposição à aterrorizante obra-prima Olhai os Lírios do Campo. Agradeço com louvor aqui às redes sociais e ao algoritmo confuso do próprio YouTube, que me atirou uma recomendação precisa de tal livro, em uma seleta lista de livros de leitura necessária antes de sua morte. Escrevo em meio à leitura, encontrando-me parado dentre as centenas de páginas que passaram voando aos meus olhos.
Em um momento de leve clímax na música ambiente, Lover You Should’ve Come Over, observei a fina ligação entre as três narrativas que aconteciam ao mesmo tempo: a da canção, a do livro e a minha própria. Havia algo em comum entre elas, que estremecia o meu corpo ao tentar fisgar o tal entrelaçamento de histórias. O ódio do personagem principal, Eugênio, um homem cego de poder e que, a fim de enterrar o seu complexo de inferioridade denotado por sua própria esposa, a fria e socialite Eunice, procurou em seu corpo a oportunidade de validar a si próprio, o seu esforço e a sua solidão passadas, acreditando que uma casa que exalava riqueza e poder seria a solução de seus problemas. Talvez seja. Mas, Jeff Buckley não demonstrava tal ódio inato.
Prestei mais atenção no sinuoso instrumental que a música regia. O acordeão de início que reverberava me colocava como um espectador dentro de uma cerimônia majestosa, um casamento talvez. A ideia de um casamento parecia boa demais para ser verdade. A guitarra começava lenta, a voz do homem sussurrava, quase que com vergonha do que queria pronunciar. Vergonha, seria isso?
Mas Eugênio não externava essa vergonha do seu poder, da sua trajetória. Afinal, sacrificou todos os seus entes queridos a fim de trazer uma vida melhor para estes. Que ironia, afinal, que, quando levantou o seu tão suado diploma, não havia ninguém na mesa ao seu lado e, ainda mais cômicamente, iria conhecer o motivo de sua derrocada naquela noite, em que contemplou os céus e não havia sucesso nenhum, apenas mais um título simbólico em sua vida, assim como os apelidos de sua infância.
Tudo bem, vergonha não era, ódio não era, o que seria? Observei mais atentamente as letras e o livro se pôs de lado. A música entrava em seu segundo verso, combinado com o seu refrão; as guitarras começavam a ser dedilhadas com mais ênfase e ritmo. A música ganhava uma crescente palpável, não corrida, mas gradual, assim como a chuva que caia naquele momento. As gotas não irrompiam em raiva. Tocavam os coqueiros e as palmeiras tão docemente que elas agradeciam, balançando com leve tranquilidade e afago.
Aqui. O ponto de encontro, achei.
A covardia.
Um estalo que ecoou pela casa que abriga os meus pensamentos; parecia que a vida naquele momento tinha se encontrado com a razão, uma vez que ambas andam em direções opostas, se xingando com fervor. A tal da covardia. Jeff carregava esses traços no clamor do coro em que a música comecava a adentrar, e Eugênio carregava essa covardia latente desde a sua juventude, quando desviava os olhos de seu pobre pai, mas esforçado. Quando fazia preces mesmo se demonstrando um ateu fervoroso, mas apenas para agradar a sua matriarca. Covardia.
Mesmo com distinções, ambos carregavam a culpa de serem covardes. Quando Jeff se deleitou do prazer efêmero de sua vida conturbada, andava de mãos dadas com a covardia. Eugênio já a abraçava. Dividia momentos solenes com a sua amiga Olívia, mas, nunca teve a coragem de investir em algo, apenas conversava com a solidão e utilizava a ternura da mulher ao seu favor, a fim de se desafogar dos seus problemas. Ele é um caso muito pior, pois, era covarde e sabia de tal, se deitava amargurado mas se orgulhava de tal feito. Preferiu o poder do que a ternura. Covardia.
E agora ambos se colocavam no mesmo lugar, sofrendo de amor, mas com reações completamente distintas. Enquanto Jeff se coloca na mesa de operação e permite ser dissecado, permite ser diagnosticado, Eugênio apenas corre covardemente, sem tomar uma única decisão. Ele se põe na casa da atual amada, aquela na qual sofre com o tal amor, mas não se responsabiliza. Apenas se justifica, colocando culpa na banal perseguição pelo sucesso idealizado por si mesmo, a fim de subjulgar mais um dos seus erros, dos seus traumas que não pediram para ser revelados. Jeff canta que quer, grita e anuncia o seu sofrimento para o mundo, pedindo pela sua presença. Eugênio esperou o medo do luto, um sopro do Senhor Destino para tomar uma meia decisão, mentindo no processo.
Mentira. O que leva o homem a mentir? Nietzsche falou sobre sobrevivência. Concordo com ele. Precisamos mentir para sobreviver.
Fito linhas em cursivo do tal livro novamente, enquanto a música começava a chegar ao seu fim.
Ele não correrá atrás de Eunice. O Destino os aproximava. Ele não tinha culpa.
O Destino tem este poder? De embebedar o homem com tanta covardia que ele se resiste a negar avanços de uma mulher à qual ele mesmo não tem apreço nenhum? O quão fraco precisa ser este homem para se negar a falar um simples não?
Bem, a ternura ele não merecia. Se colocava em corpos de mulheres casadas a fim de resgatar qualquer senso de superioridade que havia lhe exaurido durante a sua trajetória. Covarde, patético.
Este não merece o por amor. Sofrer por amor é desejar o afago de sua amada naquela imensidão do céu negro. Observar suas fotos e gravar os seus mínimos traços. Tocar em seus ombros e sentir o equilíbrio do mundo. Trocar um império por frações de segundos em que lábios se encontram.
Nunca realmente vai acabar.
A frase se projeta na televisão apagada à minha frente, no livro em meu colo, em meus dois tímpanos. Jeff morreu sofrendo de amor? Eugênio realmente amava aquela mulher, ou simplesmente amava a paz que ela lhe dava? Não tinham passado por turbulências, malemá conflitos, até porque Olívia os evitava. Uma pessoa que atualmente seria considerada estoica, mas que era apenas realmente vivida, sabia olhar nos olhos e reconhecer o cerne humano. Questões suspensas.
Todos nós somos covardes por sofrer de amor. É agradável não tomar decisões arriscadas, deixar o poder com o tal Destino. Não firmar os seus pés em terra nova. Não dar certeza da estadia. Precisa ser covarde para sofrer de amor.
Imagine só, observar os lírios enquanto o auto desliza pela estrada pavimentada com louvor, enquanto aquilo se torna uma memória. O monumento de sua covardia. Amar é viver. E sofrer faz parte da vida.
O livro se fecha, e com mais ódio fico de Jeff e de Eugênio. E de mim mesmo.


